terça-feira, 26 de outubro de 2010

Dinheiro pingado

22 de Outubro de 2010

LUIZ CARLOS PRATES

Dinheiro pingado


Quando o dinheiro sai pingado do bolso não nos damos conta. É mais ou menos como alguém que não se importa com a torneira da cozinha pingando sem parar, dia e noite. Ah, isso não vai alterar a conta no fim do mês, são pingos, é o que muitos pensam. Recorrendo à minha caixa de sapatos, transbordante de frases, provérbios e aforismos, dela tiro esta lembrança: De grão em grão, a galinha enche o papo...

De tostão em tostão, chega-se ao milhão, não é mesmo, Tio Patinhas? De gota em gota, a conta d’água nos pode levar à falência. Mas é difícil para a brasileirada entender desses princípios da economia e da sabedoria populares.

Já contei aqui de um amigo, faz tempo isso, que tinha um carrinho de pobre, como ele dizia, 1.0. E ele queria trocá-lo, mas não tinha dinheiro suficiente. Iniciou, então, uma poupança com pequenos depósitos. O que dava, levava ao banco.

Queria ter o bastante para dar de entrada na compra do carro dos seus sonhos, um carro 2.0, de preço em torno de R$ 60 mil. Foi juntando, juntando, e quando tinha o dinheiro da entrada, ouviu alguns pitos do “velho” pai: “Não sejas burro, rapaz. Sem essa de comprar a prazo, junta e compra à vista. Vai te sair mais barato e tu não vais ficar devendo nada a ninguém”, foi o conselho do pai.

E foi o que o amigo fez. Juntou, juntou e chegou aos R$ 60 mil, que ele me disse ia despejando na poupancinha do banco. Quando foi fazer a contabilidade, tomou um susto, tinha o dinheiro de que precisava para o novo e dispendioso carro dos sonhos, e tinha até um pouco mais. Pegou o dinheiro e saiu para a compra, mas voltou no carro velho, não comprou. Esse amigo, de Porto Alegre, me contou que quando viu todo aquele dinheiro na mão, ficou com pena de gastá-lo num carro, afinal, podia ficar com o carro de hoje ou comprar um outro 1.0, novo e perfeitíssimo para as suas necessidades. Ele se dera conta do valor do dinheiro vendo-o na mão.

Meu amigo descobriu a felicidade da poupança e de tratar com carinho o suado dinheiro conquistado. Afinal, ele não precisava de um carrão, ele apenas desejava um carrão. Entre desejar e precisar está, não raro, a fronteira do abismo financeiro na vida. Ou as janelas escancaradas do paraíso, tudo vai depender do controle emocional e da educação financeira do “paciente”...

CONSELHO

O sr. Mantega, ministro da Fazenda, andou dizendo que “a família brasileira tem potencial para aumentar, com responsabilidade e segurança, o endividamento”. “A família brasileira é uma das menos endividadas do mundo, há espaço para aumentar o endividamento!” Falou isso nos Estados Unidos. Pai, perdoai-lhe, não sabe o que diz.

CRIANÇAS

A uma criança você pergunta: “Preferes um pirulito agora ou amanhã?” A criança vai dizer que quer um agora. O povo brasileiro faz a mesma coisa. E acha que cresceu.

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