sexta-feira, 5 de outubro de 2007



O rebanho

É certo que nós, os homens, nos temos animalizado.
Tornaram-se mais raros os comportamentos humanos: quero dizer comportamentos ditados pela inteligência e pela vontade; pela parte espiritual
– a mais elevada – do nosso ser.
Procuramos encher a barriga, buscamos o divertimento, a comodidade, o prazer, aquilo que é fácil.
Não nos interessam os sábios, os filósofos, os poetas, os santos.
Não queremos ouvir falar de subir montanhas
– interiores ou exteriores a nós –,
de superação, de ousadia, de sacrifício.
Aventuras... só aquelas que não tiverem necessariamente consequências,
as que não comportarem um risco real
– o que impede que sejam realmente aventuras...
Somos, cada vez mais, um pedaço de carne mole estendida à sombra.
Olhamos, na rua, para uma multidão e cada vez temos mais a sensação de que não se diferencia muito de um rebanho,
de que constitui uma massa amorfa sem individualidades.
E, no entanto, esse rebanho segue um caminho;
obedece a indicações precisas, aceites por todos.
Mesmo as coisas mais disparatadamente contrárias à nossa natureza, ao nosso bem, à nossa felicidade, são pacificamente aceites por todos.
Há alguém – há interesses – por trás da forma como, por exemplo, são orientados muitos meios de comunicação.
Estes nossos tempos têm os seus “profetas” escondidos, que erguem o dedo e apontam caminhos que quase todos seguem docilmente, como ovelhas tontas a quem basta a sua dose diária de erva verde, de sombra e de descanso.
Transformar uma multidão de seres inteligentes em rebanho foi
– está a ser – uma gigantesca tarefa, reveladora de grande inteligência.
E , também, de muito desprezo pelos outros seres humanos.
Qual foi a táctica? Foi, sem dúvida, complexa.
Mas o seu elemento mais decisivo consistiu em fazer crer às pessoas que se estava a defender os seus interesses, os seus direitos e a sua liberdade.
Como se esses “profetas” se preocupassem generosamente com os interesses das outras pessoas... Como se alguém tivesse visto essa gente a fazer voluntariado em hospitais ou a distribuir os seus bens aos mais pobres...
Esta linguagem – “os vossos direitos, a vossa liberdade”...
– soa bem aos ouvidos de qualquer um...
É atractiva, quase irresistível.
Com ela conseguiram mudar a mentalidade de muitos e alterar o tom da sociedade.
Quando lhes interessou que diminuísse o número de nascimentos de crianças, procuraram que as mulheres passassem a estar fora do lar («A condição e a utilização das mulheres nas sociedades dos países subdesenvolvidos são particularmente importantes na redução do tamanho da família...
As pesquisas mostram que a redução da fertilidade está relacionada com o trabalho da mulher fora do lar», lê-se no tenebroso Relatório Kissinger, pag. 151).
Para isso, não fizeram leis que obrigassem a mulher a trabalhar longe de casa, porque isso apareceria claramente como um abuso e uma ingerência e se estava numa altura em que o mundo não admitiria novas tiranias.
O que fizeram foi divulgar a ideia de que a mulher tinha tanto direito como o homem a trabalhar fora do lar.
E as mulheres empertigaram-se... e a mensagem passou.
E não quiseram, pelo mesmo motivo, obrigar a mulher a abortar.
Disseram-lhe que tinha o direito de “interromper a gravidez” porque a gravidez era um assunto apenas dela.
E não disseram aos casais que tivessem poucos filhos.
Mostraram-lhes, simplesmente, como era bom consumir; que tinham tanto direito como os outros à qualidade de vida (ter muitas coisas...).
Apenas lhes fizeram notar que com cada filho se gasta uma fortuna... e que cada filho que viessem a ter teria também o seu direito à qualidade de vida.
E, no início, não divulgaram directamente o homossexualismo.
Falaram às pessoas de liberdade sexual, da livre escolha de cada um nesse campo.
E não impediram os pais de educar os filhos. Falaram do direito à educação, concretizando-o em leis – obrigatórias!... – que encaixotam as crianças, desde tenra idade, em escolas que não são exactamente centros educativos.
Nesses lugares – longe da vista dos pais – ensinam actualmente os jovens a terem relações pré-matrimoniais “seguras”. E a bondade da “opção homossexual”. E outras coisas do género. É nisto – unicamente nisto – que consiste aquilo a que pomposamente chamam “educação sexual”.
Tudo aquilo que, ao longo da história, muitos tiranos tentaram, sem grande sucesso, realizar através da força – selecção de raça, super-homem, eliminação dos deficientes e dos velhos e dos inúteis, homem-ovelha facilmente conduzido – está agora a ser conseguido sem grandes ondas...


Paulo Geraldo

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